As marcas de skate com mais história

As marcas de skate com mais história

O que estás a comprar quando compras Dogtown, SMA, Alva, Vision, Hosoi, Independent, Santa Cruz, Powell Peralta, Blind, Black Label, Zero ou New Deal.

Publicado pela NO23 Skateboards

 

Quando compras um deck ou um par de trucks de uma marca como a Dogtown, a Santa Monica Airlines, a Alva, a Vision, a Hosoi, a Independent, a Santa Cruz, a Powell Peralta, a Blind, a Black Label, a Zero ou a New Deal, não estás apenas a comprar equipamento de skate. Estás a comprar décadas de cultura, de skaters que inventaram o skate moderno tal como o conhecemos, de histórias que foram filmadas, fotografadas e contadas ao mundo inteiro.

Em Portugal, é fácil ir ao mais barato e ao mais genérico. Mas há uma diferença real entre uma marca com história e uma marca sem ela. Este artigo existe para te contar essa diferença.

 

Gordon & Smith (1959): os primeiros a levar o skate a sério

Fundada em 1959 em San Diego por Larry Gordon e Floyd Smith, a Gordon & Smith é uma das empresas mais antigas da história do skate. Nasceu como marca de pranchas de surf, mas foi das primeiras a perceber que o skate não era uma moda passageira: era um desporto a sério que precisava de equipamento a sério.

A G&S patrocinou skaters que viriam a definir gerações, incluindo o jovem Stacy Peralta antes da Powell Peralta existir. A sua aposta em materiais de qualidade e na ligação direta com os riders que andavam nas suas pranchas estabeleceu um modelo que todas as marcas depois dela seguiriam.

Sessenta e cinco anos de história. Quando pegas num deck G&S, tens nas mãos a origem de tudo.

 

Santa Cruz (1973): a mais antiga de todas ainda em atividade

A Santa Cruz Skateboards foi fundada em 1973 em Santa Cruz, Califórnia, por Richard Novak, Doug Haut e Jay Shuirman, três amigos surfistas que começaram por fazer pranchas de surf. Por acaso e por desafio, produziram os primeiros 500 decks de skate com o excedente de fibra de vidro que tinham em armazém. Venderam todos de imediato. O resto é a história da marca de skate contínua mais antiga do mundo.

O que tornou a Santa Cruz verdadeiramente icónica foi a chegada de Jim Phillips como diretor de arte. Phillips redefiniu o que era possível fazer graficamente num deck: cores explosivas, linhas arrojadas, personagens que saíam da madeira. Em 1985 criou o Screaming Hand: uma mão decepada, azul, com uma boca a gritar na palma. Tornou-se imediatamente o símbolo da Santa Cruz e um dos gráficos mais reconhecidos em toda a história do skate. Em 2017, Phillips foi induzido no Skateboarding Hall of Fame.

A Santa Cruz foi também uma das primeiras marcas a introduzir o côncavo nos decks e o nose levantado, inovações técnicas que toda a indústria acabou por adotar. A collab com os Stranger Things que tens disponível na NO23 é a prova de que a marca sabe ligar a sua identidade visual à cultura pop sem perder um grama de autenticidade.

 

Dogtown (anos 70): o skate nasceu aqui

A história da Dogtown começa antes de existir a marca. Em meados dos anos 70, um grupo de jovens de Santa Monica e Venice Beach, Califórnia, formou a equipa Zephyr, conhecidos como os Z-Boys. Tony Alva, Jay Adams, Stacy Peralta, Jim Muir, Peggy Oki entre outros. Crianças de bairros difíceis que transformaram o skate num ato de rebeldia, de expressão e de arte.

O estilo deles era completamente diferente de tudo o que existia: baixo, agressivo, inspirado no surf. Quando a seca histórica da Califórnia nos anos 70 esvaziou piscinas em todo o estado, os Z-Boys viram uma oportunidade. Invadiam quintais e inventavam o skate de transições tal como o conhecemos hoje. Craig Stecyk fotografou tudo e publicou na Skateboarder Magazine numa série chamada "Dogtown Articles".

A Dogtown Skateboards nasce formalmente com Jim Muir e Wes Humpston, continuando o espírito Z-Boys em forma de marca. A Cruz de Dogtown tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos da cultura de skate. Hoje, sob a Dogtown x Suicidal, a marca continua nas mãos dos próprios skaters que a fundaram.

O documentário "Dogtown and Z-Boys" de 2001, realizado por Stacy Peralta e narrado por Sean Penn, ganhou o prémio do público e o prémio de realização no Festival de Sundance. Se não viste, vê.

 

Vision Skateboards (1976): onde o skate encontrou a moda e a arte

A Vision foi fundada em 1976 por Brad Dorfman no sul da Califórnia. O que distinguiu a Vision desde cedo foi a capacidade de perceber que o skate não era apenas um desporto: era uma cultura com a sua própria estética, música e linguagem visual.

A marca foi uma das primeiras a introduzir o côncavo duplo nos decks e criou a primeira linha de roupa de skate do mundo com a Vision Street Wear. Os skaters que patrocinou dizem tudo: Mark "Gator" Rogowski foi o primeiro pro model em 1984. Mark Gonzales assinou em 1985. Em 1986 chegou o Psycho Stick, um shape assimétrico e radicalmente original que aparece na capa do álbum "Kick" dos INXS de 1987, um dos discos mais vendidos daquela década.

Gonzales acabou por sair da Vision para fundar a Blind Skateboards: Blind é o oposto de Vision. Em 1989 a Vision faturou 89 milhões de dólares. O seu legado na história do skate e da moda de rua é inegável e permanente.

 

Alva Skates (1977): a primeira marca de um skater para skaters

Tony Alva foi um dos Z-Boys mais explosivos e carismáticos. Em 1977, com apenas 19 anos, era já campeão mundial de skate e fez algo que nunca tinha sido feito: fundou a sua própria marca de skate.

A Alva Skates foi a primeira empresa de skate fundada e dirigida por um skater. Antes da Alva, as marcas de skate eram empresas de negócios. Depois da Alva, a ideia de que um skater podia ser dono da sua própria marca tornou-se real. Sem Tony Alva, não existiria o modelo de negócio que sustenta praticamente todas as marcas independentes de skate que existem hoje.

A Alva foi também uma das primeiras marcas a usar maple canadiano em camadas para os seus decks, estabelecendo o padrão de construção que toda a indústria acabaria por adotar. O deck Alva Flame tornou-se o símbolo visual de uma era. Nos anos 80 a equipa incluiu Christian Hosoi, Ray Barbee e um jovem Mark Gonzales.

 

Santa Monica Airlines (1978): o espírito Z-Boys em forma de marca

Skip Engblom foi um dos três fundadores da loja Zephyr de onde nasceram os Z-Boys. Em 1978 fundou a Santa Monica Airlines, conhecida como SMA, moldando decks à mão no fundo de uma loja de surf com a mesma energia rebelde dos Z-Boys.

A chegada de Natas Kaupas nos anos 80 transformou a SMA numa das marcas mais importantes da história do street skate. Natas é considerado, ao lado de Mark Gonzales, um dos inventores do street skate moderno. O seu pro model Panther tornou-se símbolo de uma nova forma de skatar: nas ruas, nos lancis, nas escadas, nos corrimãos.

Foi Skip Engblom quem sugeriu a Steve Rocco que comprasse 500 decks a crédito e fundasse a sua própria empresa. Essa conversa foi a origem da World Industries, que gerou a Blind, a 101 e a Plan B, transformando completamente a indústria do skate nos anos 90. Sem a SMA, a revolução do street skate poderia ter demorado muito mais a acontecer.

 

Independent Trucks (1978): construídos para grinder

Os Independent Trucks foram fundados em 1978 por Fausto Vitello, Eric Swenson, Richard Novak e Jay Shuirman. A origem foi direta: os trucks que existiam ou partiam depressa demais ou não viravam bem. Fausto, que era skater, decidiu construir os seus próprios.

O Stage 1 foi apresentado num campeonato em Newark em 1978. Bobby Valdez mudou para Independents nesse mesmo evento, fez o primeiro invert da história e ganhou. Em seis meses a marca tinha 50% do mercado norte-americano de trucks.

O logótipo da Cruz foi desenhado pelo mesmo Jim Phillips da Santa Cruz e tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos da cultura de skate. Fausto Vitello co-fundou ainda a Thrasher Magazine em 1981. Quase cinquenta anos depois o Stage 11 continua a ser o truck de eleição de riders profissionais em todo o mundo. "Built to Grind" não é apenas um slogan, é um facto verificável.

 

Powell Peralta (1978): a fábrica de lendas

Stacy Peralta co-fundou a Powell Peralta em 1978 com George Powell. A decisão mais inteligente que tomou foi reunir os melhores skaters do mundo numa equipa chamada Bones Brigade: Tony Hawk, Rodney Mullen, Steve Caballero, Mike McGill, Lance Mountain, Tommy Guerrero.

Os vídeos da Bones Brigade foram os primeiros grandes vídeos de skate da história. Mudaram a forma como o skate era visto, filmado e distribuído. Foram o YouTube antes do YouTube existir. Os decks pro model tornaram-se objetos de desejo de uma geração inteira de jovens skaters em todo o mundo.

Os reissues old school disponíveis na NO23 são reproduções fiéis dos shapes originais dos anos 80: o Steve Caballero Dragon, o Steve Saiz Totem, o Mike McGill Snake Pit. Comprar um destes decks é ter um pedaço desse momento na tua mão.

 

Hosoi Skateboards (1984): estilo, ar e redenção

Christian Hosoi cresceu nos skatepark de Los Angeles com Tony Alva como ídolo. Aos 14 anos já era profissional. Em 1984 fundou a Hosoi Skates e em 1985 lançou o Hammerhead, um dos shapes mais revolucionários da história do skate. O Smithsonian Institution tem um Hammerhead na sua coleção permanente. É o único deck de skate que merece esse estatuto.

A história do Hosoi tem também um lado humano profundo. No final dos anos 90 a carreira desmoronou por conta de problemas com drogas e uma condenação que resultou em cinco anos de prisão. Saiu em 2004, reconstruiu a sua vida e a sua marca. A sua história de redenção foi documentada no filme "Rising Son" em 2006. Hoje os Hammerheads continuam a ser produzidos com os shapes originais, assinados pelo próprio Christian.

Um deck Hosoi não é apenas um deck. É uma das formas mais reconhecíveis na história do skate.

 

Black Label Skateboards (1988): independência total desde o início

John Lucero é um dos nomes mais respeitados da história do skate californiano. Em 1988 fundou a Lucero Ltd., que rapidamente se tornou a Black Label Skateboards.

O que definiu a Black Label desde o início foi a recusa total em comprometer a identidade da marca por razões comerciais. Gráficos arrojados, estética punk e dark, nunca a tentar agradar a toda a gente. A equipa ao longo das décadas é um quem é quem do street skate: John Cardiel, Jason Adams, Matt Hensley, Salman Agah, Jeff Grosso, Mike Vallely, Gino Iannucci.

Ainda hoje dirigida pelo próprio Lucero, a Black Label é um dos exemplos mais puros de uma marca de skater para skaters que sobreviveu à pressão comercial sem perder a alma.

 

Blind Skateboards (1989): o oposto de tudo

Em 1989 Mark Gonzales estava farto da Vision e a pensar reformar-se. Steve Rocco convenceu-o a fundar a sua própria marca. O nome foi deliberado: Blind é o oposto de Vision.

Com Jason Lee, Guy Mariano, Rudy Johnson e o próprio Gonz na equipa, a Blind lançou em 1991 o "Video Days", realizado por Spike Jonze, considerado por muitos o vídeo de skate mais importante de todos os tempos. Em menos de trinta minutos o Video Days redefiniu o que era o street skate, como devia ser filmado e que música devia acompanhá-lo.

O grim reaper, o ceifador que se tornou o símbolo da marca, foi desenhado pelo próprio Gonzales e continua até hoje a identificar a Blind no mundo inteiro. Para quem conhece a história, comprar um deck Blind é comprar um pedaço de 1991.

 

New Deal Skateboards (1990): quando os skaters decidiram fazer as suas próprias regras

Em 1990, num campeonato em Del Mar, Steve Douglas, Paul Schmitt e Andy Howell fartaram-se das grandes marcas e fundaram a New Deal. Andy Howell trouxe uma estética inspirada no graffiti e no hip-hop que varreu os dragões e caveiras dos anos 80. Num único movimento, a New Deal sinalizou que o street skate tinha chegado.

Os vídeos "15 Minute Promo" e "Useless Wooden Toys" foram filmados em câmaras domésticas, focados exclusivamente no skate. Numa época em que a Powell Peralta produzia vídeos com produção cinematográfica, a New Deal filmava na rua com o que tinha. E ganhou.

Da New Deal nasceu ainda a Element Skateboards e a 411 Video Magazine. Em 2019 a marca regressou com os seus fundadores originais para celebrar trinta anos de história. Uma marca que mudou o skate duas vezes: quando nasceu e quando voltou.

 

Zero Skateboards (1996): o punk do street skate moderno

Jamie Thomas saiu da Toy Machine em 1996 para fundar a Zero Skateboards. O "Chief" trouxe ao street skate dos anos 90 e 2000 uma energia crua, agressiva e comprometida com manobras de alto risco em spots urbanos reais.

A Zero ficou conhecida pelo skull icónico, pela estética punk e dark e por vídeos que ficaram na memória de uma geração: "Thrill of It All", "New Blood", "Cold War". Ganhou três vezes consecutivas o King of the Road da Thrasher Magazine entre 2004 e 2006. Chris Cole ganhou o Thrasher Skateboarder of the Year em duas ocasiões, um feito que apenas quatro skaters na história conseguiram.

Jamie Thomas continua a dirigir a marca de forma independente, fiel ao espírito original com que a fundou quase trinta anos atrás.

 

O que muda na prática quando escolhes uma marca com história

Quando compras qualquer uma destas marcas estás a comprar:

Construção com controlo de qualidade real. Maple norte-americano ou canadiano selecionado, prensagem controlada, pop consistente. Não é marketing, é a diferença que sentes debaixo dos pés.

Um gráfico com contexto. A Cruz de Dogtown tem cinquenta anos. O Screaming Hand da Santa Cruz foi desenhado em 1985. O Hammerhead do Hosoi está no Smithsonian. O Flame da Alva foi o primeiro logótipo de uma marca de skater. Isso importa.

Uma ligação à cultura. Quando andas num deck destas marcas, fazes parte de uma linha que começa nos anos 50 e chega até hoje. Não é nostalgia, é identidade.

Valor de revenda e de coleção. Edições limitadas, reissues, decks pro model históricos: estas marcas têm vida para além do skate em si.

 

A história continua

O skate que existe hoje só existe por causa do que aconteceu em Santa Monica e Venice Beach nos anos 70. Por causa dos Z-Boys e das piscinas vazias. Por causa de Tony Alva a fundar a primeira empresa de um skater. Por causa da Bones Brigade a filmar em VHS. Por causa do Video Days a ser filmado numa câmara de mão nas ruas de Los Angeles.

Comprar uma destas marcas não é comprar o passado. É reconhecer de onde vieste.


Artigo escrito pela equipa NO23 Skateboards

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